Habitantes do novo município da província do Bié, denunciam um cenário de abandono sistémico, onde a abundância de recursos naturais contrasta com a falta de hospitais, estradas intransitáveis, falta de comunicação, energia eléctrica e uma crise de legitimidade no poder tradicional.
Lúbia, um município isolado e sem saúde, a tealidade quotidiana na região é marcada por uma ausência total de saneamento básico e infraestruturas essenciais.
Segundo relatos locais, as estradas encontram-se em péssimo estado, não existe água canalizada e o único hospital disponível é descrito como descartável, sem fármaco só para não citar a necessidade de ambulância.
Nas ombalas (aldeias tradicionais) mais distantes da sede municipal, a situação é ainda mais grave: não existem unidades de saúde nem ambulâncias para transportar os doentes.
A falta de assistência médica tem levado a mortes evitáveis. “As pessoas estão a morrer à toa por falta de hospitais e no hospital que existe não tem medicamentos”, lamenta um habitante, explicando que as receitas médicas passadas podem custar entre 15.000 a 20.000 kwanzas, valores incomportáveis para um camponês.
O Rio Lúbia, constitue um isolamento, a precariedade das vias de acesso atinge o seu auge durante a época das chuvas. O Rio Lúbia, outrora atravessável, transforma-se num ‘oceano’ que impede a transportação de pessoas e bens.
A promessa de construção de pontes arrasta-se há anos sem concretização; um camião chegou a ser enviado para o local, mas retirou-se sem realizar qualquer obra.
Actualmente, para contornar estas barreiras, os veículos são obrigados a circular por zonas de areia, apesar de esta ser uma área rica em recursos.
Diamantes, riqueza para fora, miséria para dentro, o contraste mais gritante reside na exploração diamantífera. A região da Lúbia é famosa internacionalmente pelos seus diamantes, mas os residentes afirmam que os recursos beneficiam apenas outras localidades enquanto a região está a ficar ‘podre’.
As cooperativas estrangeiras que operam na zona são acusadas de não apoiar a comunidade e de oprimir os jovens locais, chegando a cobrar cerca de 100.000 kwanzas apenas para permitir o acesso às mesas de exploração, sem qualquer garantia de retorno.
“Estão a cobrar dinheiro para aceder às mesas de exploração… e não se sabe lá no fundo se tem ou não”, denuncia um morador.
Crise no poder tradicional e opressão política a par da degradação social, vive-se um conflito de autoridade. Líderes locais reivindicam a restauração do poder tradicional ancestral, alegando estarem a ser governados por ‘impostores’ colocado pela administração local do Estado.
Relatam-se ameaças de captura e detenção contra aqueles que contestam a autoridade do actual regedor (impostor) municipal.
“Somos donos desta terra, deixada pelos nossos ancestrais… estamos a ser oprimidos dentro da nossa própria terra”, afirma um representante local, sublinhando que o poder tradicional não deve ser confundido com linhagens militares de 1975.



